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30/01/2018
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Os Cidadãos Europeus têm que estar Informados sobre as Implicações da Cloud


A cloud é o recurso usado pelas empresas da «nova economia» para fornecerem serviços e desenvolverem inúmeras inovações. No entanto, apesar da importância da Cloud para a revolução digital, e das suas implicações em termos de segurança dos dados e opções de mercado, esta não tem suscitado grande interesse junto da opinião pública. Nesta entrevista, Xavier Perret explica por que razão é tão importante ter um operador cloud europeu entre os grandes protagonistas mundiais da web.

Biografia: Xavier Perret é formado em engenharia tem um Executive MBA (@xavperret). Atualmente é o Chief Digital and Marketing Officer (CDMO) do grupo OVH. É autor e coautor de vários livros sobre as transformações relacionadas com Big Data e o setor digital:" Au secours ma vie se digitalise " (Edições Kawa); e " De MacGyver à Mad Men. Quand les séries TV nous enseignent le management " (Edições Dunod).





Todos os dias ouvimos falar da revolução digital. A OVH fornece o recurso que sustenta essa revolução, a cloud computing. Apesar disso, grande parte do público desconhece a Cloud e as suas implicações. Como explicar este desconhecimento?


A OVH fornece os recursos tecnológicos que estão na base da atual revolução digital. Diz-se que a Internet é virtual. Esta descrição é incompleta. Os dados gerados pela atividade das empresas precisam de infraestruturas e equipamentos para serem armazenados e processados: datacenters, servidores, rede de fibra ótica e equipamentos de rede espalhados pelo mundo inteiro. Este é o domínio da OVH, a dimensão tangível da Internet. Os nossos 27 datacenters alojam mais de 300 000 servidores físicos e mais de 350 000 servidores virtuais. A gestão desta grande infraestrutura exige a intervenção de homens e mulheres que trabalham dia e noite para garantir a segurança e a disponibilidade permanente de infraestruturas essenciais ao funcionamento da economia. A OVH conta hoje com 2400 colaboradores em todo o mundo e pretende contratar mais 1000 até finais de 2018. Somos uma empresa discreta. No entanto, alguns de vocês já ouviram falar de nós. E muitos de vós já usaram os nossos servidores sem o saber, como utilizadores de um serviço digital disponibilizado por um dos nossos clientes (mais de um milhão em todo o mundo!).



Até recentemente, a tecnologia de informação das empresas, ou das administrações públicas, era gerida dentro das próprias organizações. Mas nos últimos anos, tem havido uma migração maciça dos recursos informáticos para a cloud. A gestão e a manutenção das infraestruturas informáticas são tarefas muito exigentes em termos de segurança, investimento e competências técnicas. Em contrapartida, a cloud torna tudo mais simples e flexível para todo o tipo de soluções: lojas online, aplicações web e mobile, intranet, serviços de streaming de música e de vídeo, gaming ou sites de entidades oficiais. Com a cloud, as empresas já não precisam de se preocupar com a gestão de equipamentos físicos, podendo concentrar os recursos na inovação e nas atividades que geram maior valor acrescentado.



Além disso, os recursos necessários para desenvolver um novo projeto, testar uma ideia ou dar resposta a um pico de tráfego encontram-se facilmente disponíveis, são ativados em poucos minutos e podem ser faturados de acordo com o tipo de utilização. Resultado, os recursos informáticos são usados cada vez mais «as a service», e os operadores como a OVH ficam responsáveis pela dimensão material deste ecossistema, ou seja, pela manutenção e atualização do hardware e do software alojado nos datacenters. A cloud é isto!



Esta revolução invisível para muitos, é sustentada por uma procura cada vez maior de recursos digitais, cuja utilização, segundo a IDC [International Data Corporation] tem gerado um crescimento anual da produção de dados de 40%. Por esta razão, e tendo em conta a utilização cada vez maior de sistemas de Big Data, Machine Learning, Deep Learning e inteligência artificial, as necessidades de armazenamento e de processamento dos dados também aumentam.



Em breve, é bem provável que uma fábrica robotizada gere diariamente mais de um petabyte de dados, e um carro autónomo cinco terabytes. Todavia, muitos destes dados, analisados pelos algoritmos para melhorar, personalizar e criar novos serviços digitais, são pessoais. Esta questão é muito importante.



Atualmente, os gigantes americanos Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft (GAFAM) surgem como os protagonistas todos-poderosos da web e da economia digital. Por que razão a existência duma empresa como a OVH, a alternativa europeia a estes gigantes, é tão importante?


O uso de serviços digitais, a título pessoal e profissional, tem como contrapartida a recolha e o processamento de dados, com o consentimento mais ou menos informado dos utilizadores. Neste contexto, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) é fundamental.



Este projeto, que entrará em vigor no dia 25 de maio de 2018, visa uniformizar e regular, de forma mais rigorosa, a utilização dos dados no espaço europeu, afetando a atividade de quase todas as empresas a operar na UE. O diploma pretende simplificar o enquadramento legal que regula a atividade das empresas e dar maior controlo aos cidadãos sobre os próprios dados.



Esta iniciativa confirma a preocupação da União Europeia com a proteção dos dados, inclusive os dados das empresas, inseridas atualmente num contexto de forte concorrência mundial (i.e. outro efeito da revolução digital).



Na minha opinião, a entrada em vigor do RGPD (cuja adoção dará muito trabalho às empresas) irá aumentar a consciência da população sobre as implicações da cloud.



Uma sondagem recente do instituto Consumer Science & Analytics (CSA) revelou que 9 em 10 franceses estão preocupados com a segurança dos dados pessoais na Internet.



Por tudo isto, está na altura de os cidadãos e as empresas perceberem bem a importância da localização dos dados e do enquadramento jurídico que regula a sua utilização. Ou seja, os dados podem estar sujeitos ao enquadramento jurídico do território onde os datacenters estão localizados, ou do país de origem do operador que presta o serviço cloud. Esta questão afeta os clientes europeus que usam serviços alojados noutras partes do mundo, ou as soluções das empresas não europeias com infraestruturas na Europa. Neste âmbito, é preciso ter em conta vários fatores. Primeiro, as diferenças entre os regimes de proteção de dados na Europa, Ásia ou nos Estados Unidos, como demonstra a questão do Patriot Act e os casos associados aos programas generalizados de vigilância. Segundo, os planos de expansão das empresas chinesas, com o objetivo de tirar o melhor partido da posição de destaque da China na indústria digital.



Por último, o contexto de forte crescimento (ca. 30% ao ano) num domínio muito competitivo e que requer grandes investimentos. Resultado: tudo aponta para uma forte tendência de concentração no mercado da cloud. Em breve, meia dúzia de operadores cloud irá dominar o setor. É por isso que a existência de uma alternativa europeia é tão importante para os interesses de empresas e clientes finais.



Estamos perante uma questão de soberania digital em termos individuais e geopolíticos, que não pode passar despercebida aos cidadãos europeus.



Atualmente, a OVH é líder europeia da cloud. Para reforçar a sua posição internacional, apostou forte na expansão global através da criação de novos datacenters: Alemanha, Reino Unido, Polónia, Austrália, Singapura e Estados-Unidos (em termos jurídicos e operacionais, a filial americana está completamente separada das outras subsidiárias OVH). O objetivo consiste em dar resposta às necessidades dos nossos clientes, e em particular aos clientes empresariais, para que possam estar mais próximos dos utilizadores.



A cloud da OVH é diferente? Porquê? Quando falamos em tecnologias de armazenamento e processamento dos dados, quais as vantagens da alternativa europeia?


Para além dos aspetos jurídicos relativos à proteção da privacidade e da confidencialidade dos dados no espaço europeu, a OVH promove um modelo Open Cloud. Para nós, as empresas devem ter o máximo de liberdade num mundo cada vez mais digital. Liberdade para escolherem e mudarem de operadores cloud; para usarem vários operadores, para internalizarem parte da infraestrutura (a cloud híbrida); ou para escolherem a localização mais conveniente para alojarem os dados. Esta liberdade é importante e deve ser preservada.



Por vezes, a migração (data reversibility) ou a repatriação dos dados é muito complicada, devido à existência de bloqueios técnicos. Mas as nossas soluções cloud assentam em tecnologias open source e em padrões que permitem a interoperabilidade dos serviços. Esta vantagem é muito importante.



Tendo em conta o valor estratégico da cloud para as empresas, estas não podem correr o risco de ficarem agarradas «para sempre» ao mesmo operador. Defender uma cloud open significa também evitar a hegemonia de alguns agentes de mercado, com poder suficiente para impor regras e bloquear a concorrência e a inovação.



Recentemente, o ativismo da OVH deu origem à criação da Open Cloud Foundation (OCF), uma organização que reúne cerca de trinta empresas, associações profissionais, entidades públicas e centros de investigação. Para além da Cloud, a OCF também promove boas práticas ao nível da «intermediação» (recurso a intermediários para divulgar ou disponibilizar serviços aos utilizadores finais, através de motores de pesquisa, marketplaces...); ou da propriedade intelectual, no âmbito da inteligência artificial e dos motores «cognition-as-a-service» (os direitos sobre os algoritmos devem ser protegidos, mas o seu funcionamento deve ser transparente).



Por fim, penso que a abordagem europeia marca a diferença pela sensibilidade relativamente ao impacto do tsunami digital. Os europeus começam a desenvolver um espírito crítico relativamente às tendências digitais, e a questionar a suposta neutralidade dos algoritmos que influenciam as nossas orientações culturais e políticas, ou os nossos hábitos de consumo.



Neste âmbito parece haver um consenso generalizado sobre o caráter excecional da cultura, ou seja, sobre a necessidade dar um estatuto especial à cultura, por exemplo, nos tratados internacionais de comércio. Num mercado cinematográfico dominado pelas grandes produções americanas (e no futuro, quem sabe, pelas produções chinesas), a existência do cinema europeu independente é fundamental para promover a diversidade cultural.



O mesmo acontece no domínio digital. O poderio americano tem como consequência a hegemonia das empresas americanas no setor da cloud. E de acordo com Farhad Manjoo, esta hegemonia veio para ficar.



Assim, a postura tipicamente europeia da OVH, o seu posicionamento no mercado de infraestruturas cloud ou perante a utilização dos dados, pode ter um papel fundamental na transformação digital das empresas, e na defesa dos seus interesses e dos interesses dos cidadãos.



Perante os riscos, qual a solução? Abrandar a adoção das novas tecnologias?


A solução passa por uma reflexão e por uma adoção consciente das novas tecnologias. Não acompanhar a revolução digital significa ser ultrapassado por concorrentes mais dinâmicos, capazes de tirar partido das tecnologias de informação para conquistar mercado a agentes já estabelecidos, mas sem capacidade para renovar processos e serviços, devido à inércia da gestão e dos sistemas informáticos (o problema do legacy system). No entanto, a transformação digital é muito mais do que uma solução para lidar com possíveis ameaças. O digital é uma oportunidade para as empresas aumentarem a eficiência dos processos e potenciarem as suas vantagens comparativas. Na verdade, a revolução digital é uma oportunidade para as empresas se reinventarem.



Por exemplo, as tecnologias de reconhecimento facial, de voz e de imagem, e a análise semântica oferecem inúmeras possibilidades de enriquecimento dos serviços prestados aos utilizadores. Estas tecnologias requerem uma grande quantidade de dados. Todavia, neste mundo de serviços digitais, com fronteiras culturais e territoriais muito porosas, devemos dar particular atenção à propriedade dos dados, e à forma como são usados. Caso contrário, os utilizadores podem perder a confiança em serviços que violam o direito à privacidade, ou que esvaziam o controlo sobre a vida pessoal.



Um pergunta essencial: a cloud e os algoritmos são tecnologias neutras?


Os algoritmos são instruções criadas para resolver problemas de cálculo ou de processamento de forma automática. Nos anos 70, surgiram os primeiros instrumentos de cálculo capazes de executar algoritmos informáticos. Desde então, temos assistido a um desenvolvimento incessante dos algoritmos e da capacidade de processamento e armazenamento dos dados.



Durante várias décadas, a utilização de algoritmos complexos e dos equipamentos mais potentes esteve limitada a grandes organizações ou a alguns laboratórios de investigação. Felizmente, as tecnologias de cloud computing vieram democratizar a utilização dos algoritmos. Estas tecnologias contribuíram para uma grande redução dos custos associados ao processamento e armazenamento de um grande volume de dados. Resultado, agora até as startups podem tirar partido das suas vantagens.



Como consequência, os algoritmos fazem cada vez mais parte do nosso dia a dia. No entanto, os algoritmos não são completamente «inócuos». Para além de refletirem os desejos dos seus criadores, podem ter efeitos imprevistos.



Os algoritmos fornecem mecanismos de análise e de identificação automática de padrões sociológicos ou culturais, que podem reforçar preconceitos e desigualdades, e contribuir para a fragmentação social.



De facto, embora baseados na racionalidade matemática, podem contribuir para veicular ou reforçar emoções e preconceitos. A sugestão de filmes e séries ou a geração de playlists automáticas num serviço de streaming não parecem ser problemáticas.



Mas noutros contextos (saúde, justiça, seguros, finanças, serviços de notícias) a situação é mais complicada, como demonstrou o sociólogo Dominique Cardon, no livro «À quoi rêvent les algorithmes. Nos vies à l'heure des Big Data».



Sobre esta questão, podemos ainda refletir sobre a possibilidade de o Homem ser ultrapassado pela inteligência artificial (um assunto abordado no relatório da Comissão Nacional de Informática e Liberdade).



A aprendizagem, o design, a possibilidade de analisar os algoritmos (para contrariar a tendência black box, associada à opacidade de alguns sistemas) ou o princípio da lealdade (que consiste em respeitar os interesses dos utilizadores) são áreas muito interessantes e que merecem maior desenvolvimento.



Tal como os algoritmos, a cloud é uma tecnologia com vantagens e desvantagens. Por isso, faz todo o sentido que as questões de ética passem a fazer parte do quotidiano dos departamentos de marketing e de desenvolvimento de software.