Como criar campeões europeus da tecnologia?

Desde há 18 anos, a organização da OVH é posta à prova anualmente. O principal desafio da empresa é gerir o crescimento dos 12 meses seguintes. O nosso trabalho consiste em sermos pioneiros no que diz respeito às infraestruturas e plataformas de cloud, para permitir que os nossos clientes procedam à transformação digital da sua atividade. Os diferentes tipos de dados e o seu volume incitam-nos a inovar nos produtos e nas soluções, de modo que os nossos clientes possam extrair valor dos seus dados o mais rapidamente possível e pelo menor custo, sem nunca perder esses dados. A nossa atividade baseia-se em dois elementos: a confiança e a inovação.

 

Tudo aquilo que oferecemos, todos os produtos e todas as soluções, devem ser totalmente digitais. Todos os processos que permitem entregar o Produto são completamente automatizados: são executados graças ao software, sem nenhuma intervenção das nossas equipas. Na OVH, é o código que nos permite progredir. É por esta razão que desenvolvemos milhares de linhas de código todas as semanas, para organizar as nossas infraestruturas e as plataformas. Através das nossas API, o cliente utiliza todos os nossos produtos sem a menor intervenção humana da nossa parte. Tudo se encontra provisionado nos nossos datacenters e pronto a funcionar. Basta uma chamada de API para o cliente começar a utilizar o produto em alguns segundos.

 

As nossas equipas estão sempre prontas a desenvolver novas funcionalidades e novos produtos, assim como resolver eventuais problemas, ajudar os clientes a escolher o melhor produto, bem como orientá-los na sua utilização ou encontrar um parceiro que saiba utilizar os nossos serviços. Para assegurar estes níveis de crescimento, integrámos na nossa proposta de valor muitas atividades invisíveis para os clientes. Somos nós que construímos os nossos próprios datacenters, e hoje operamos 28 deles em 12 países. Montamos 70 mil servidores anualmente nas nossas linhas de montagem, situadas na Europa e na América do Norte, e operamos a nossa própria rede de fibra mundial, que interliga todos os nossos datacenters. A nossa atividade requer muito dinheiro. Investimos mais de 1 milhão de euros por dia nas nossas infraestruturas, além de várias dezenas de milhares de horas de trabalho por mês no código que gere todas estas infraestruturas. Já o cliente dispõe de todos os serviços através do famoso "pay-as-you-go", com uma duração de compromisso que varia entre 1 hora e 3 anos.

 

Todos os anos, eu e as minhas equipas confrontamo-nos com as mesmas perguntas. Como fazer evoluir o modelo operacional e o modelo de gestão numa empresa em forte crescimento, sem perder o ADN responsável pelo seu sucesso? Como fazê-lo a partir da Europa, sem perder a nossa cultura e os valores europeus? Como recrutar os melhores perfis do mercado, pedindo-lhes que se preparem para enfrentar novos desafios na OVH, uma empresa diferente das outras, e permitir-lhes enriquecer o nosso ADN com a sua perícia? Como preservar a nossa cultura e aperfeiçoá-la todos os dias graças ao feedback dos nossos clientes e colaboradores? Como preservar a enorme velocidade de decisão e a agilidade de execução no âmbito da disponibilização dos nossos produtos, antes mesmo que os clientes precisem deles? Como tornar-nos um gigante tecnológico e operar face aos nossos concorrentes americanos e chineses?

 

Graças às diferentes conversas que pude ter com várias pessoas influentes na Europa, apercebi-me de que, efetivamente, ainda não existe um modelo europeu para criar gigantes tecnológicos. Existe, sim, o modelo de Silicon Valley que funciona verdadeiramente bem, tendo em conta o número de gigantes que produziu. O modelo chinês começa a emergir também. Mas quanto ao modelo europeu, ainda não nasceu.

 

A OVH é uma empresa francesa, que foi criada em 1999 sem nenhum capital de base, numa cidade improvável, Roubaix. No entanto, atualmente, a OVH tem entre os seus concorrentes as maiores empresas do mundo: a Amazon, a Microsoft, a Google, a IBM, a Alibaba e a Tencent. No que diz respeito às infraestruturas e plataformas de cloud, a OVH é a única empresa europeia que hoje tem capacidade para rivalizar no palco mundial com todos estes gigantes. Sim, a OVH é uma empresa mais pequena, mas não me sinto particularmente solitário nesta batalha. Mais cedo ou mais tarde, todas as empresas do mundo, sem exceção, também os terão (ou já os têm) como concorrentes. É meramente uma questão de tempo. Portanto, um dia toda a gente deverá confrontar-se com as perguntas que faço a mim mesmo diariamente. Ainda faltam respostas a estas perguntas, ao passo que já sabemos que, dentro de algum tempo, toda a gente vai procurar esta famosa receita.

 

Julgo que a receita para criar gigantes tecnológicos é a mesma para todos os domínios de atividade. Já existem várias empresas na Europa que valem mais de mil milhões de euros: os célebres unicórnios. A OVH faz parte delas. É porreiro. Mas, para mim, uma empresa só se torna um gigante tecnológico quando a bolsa confirma esse nível de valorização. Para validar o modelo europeu de criação de gigantes tecnológicos, é preciso que este nível de valorização seja confirmado por uma bolsa europeia. A Europa precisa desta categoria de empresas para continuar a difundir os nossos ideais por todo o mundo e só pode ser levada a sério na revolução digital se tiver campeões nesta categoria de negócio. Além disso, precisa de exemplos reais que lhe permitam ser uma alternativa aos sistemas americanos e chineses.

 

Não sei se a evolução da OVH nos fará passar um dia pela bolsa e, se isso acontecer, não sei se será europeia (caso esta validação seja eficaz) ou americana. Não sei se a minha história pessoal poderá inspirar outros empreendedores a ter ideias novas ou a simplesmente encontrarem soluções para problemas que tenham no seu quotidiano graças às minhas ideias. Não sei se a história da OVH pode inspirar os políticos a criarem as condições necessárias para que haja o máximo de empreendedores em cada país europeu e para que estes empreendedores consigam criar gigantes. Não tenho qualquer certeza sobre nada disto. Mas uma coisa sei: se não tentarmos, nunca poderemos ser bem-sucedidos. Na minha vida de empreendedor, cometi muitos erros e vivi muitos fracassos. Também conheci sucessos. Hoje, além de gerir a OVH, gostaria de ajudar aqueles que desejam criar coisas novas na Europa. É conversando, tentando, trabalhando, utilizando o ecossistema e com um pouco de sorte, que vamos conseguir, em conjunto, fazer emergir o modelo europeu para criar gigantes tecnológicos. A Europa deve consolidar-se no mundo digital, e isto passa por um verdadeiro ecossistema europeu que possa viver de forma autónoma relativamente às empresas americanas e chinesas.

 

Para partilhar estas reflexões e a minha experiência, decidi escrever uma série de publicações nas quais desejo rever os últimos 18 meses, que foram particularmente apaixonantes e ricos em acontecimentos. Entre o final de 2016 e meados de 2018, a OVH passou de 1300 para 2500 pessoas. Sim, é muito empolgante. Assim, também terei a oportunidade de apresentar o novo Comité Executivo da OVH que criei durante este período, bem como a forma como fiz um upgrade ao modelo operacional com o seu modelo de gestão para continuar no caminho do crescimento. Gostaria de partilhar o meu estado de espírito no momento em que decidi, juntamente com a minha família de acionistas e equipas operacionais, permitir a entrada de fundos de investimento (KKR e Towerbrook), em outubro de 2016. A parte mais interessante e mais difícil na partilha é, obviamente, o fracasso. Passei por vários e continuo a aprender muito a cada ano que passa. Acredito que a partilha destas experiências pode ser particularmente enriquecedora, além de que permitirá evitar que outros cometam os mesmos erros. Também falarei sobre os nossos êxitos, que alegram os nossos clientes e são o nosso orgulho. Todavia, quando se gere uma empresa, o mais importante não são os sucessos ou os fracassos. Tudo isto não passa de uma consequência de uma execução que abraça uma visão: o sonho que perseguimos e que partilhamos com as equipas e os clientes. Quanto mais clara for esta visão, mais eficaz será a execução. Gerir uma empresa também é saber contar uma história.

 

O facto de eu escrever algumas publicações é positivo, mas não basta. Na minha opinião, falta um ecossistema para os empreendedores: um ecossistema de ajuda para os auxiliar a crescer em volume de negócios de 20 milhões de euros para mil milhões, em menos de 20 anos. No mundo digital, são poucas as empresas na Europa a terem conseguido isto durante os últimos anos, permanecendo europeias. É esta categoria de empresa que quero ajudar. Não se trata de investir, mas sim de disponibilizar tempo para ouvir e aconselhar. Em cada momento da evolução da OVH, teria adorado que me tivessem dado muitos conselhos, inclusivamente quando geria a OVH com um volume de negócios de 20 milhões de euros por ano. Hoje, com um volume de negócios superior a 500 milhões de euros por ano, continuo a procurar conselhos para passar para a etapa seguinte e evitar cometer erros. Tenho a certeza de que existe um padrão europeu para passar de 20 milhões para mil milhões de euros, tal como existe um padrão americano. Evidenciá-lo ajudaria muitos empreendedores europeus a serem bem-sucedidos. Agora, só falta pôr mãos à obra.